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terça-feira, 28 de setembro de 2010

ODM: novo fôlego até 2015?



UN Photo/Albert Gonzalez Farran
Em 2000, os chefes de Estado e de Governo da ONU acordaram uma estratégia ambiciosa para até 2015 garantir que todos os povos possam viver em maior liberdade, em dignidade erradicando a pobreza extrema e a fome, melhorando a saúde materna e infantil, combatendo as doenças, empoderando as mulheres, criando um ambiente sustentável e uma parceria mundial para o desenvolvimento.

Os 8 Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM) e a sua consecução estiveram, 10 anos depois, em análise em Nova Iorque na Reunião Plenária de Alto Nível da Assembleia Geral da ONU que decorreu de 20 a 22 de Setembro deste ano.

Nesta reunião, chefes de estado e de governo, líderes de organizações da sociedade civil, fundações e sector privado fizeram um balanço sobre os sucessos e fracassos em matérias de ODM e gizaram um compromisso que visa por em prática um plano de acção que possibilite a realização dos 8 ODM dentro do prazo limite.

"O mundo possui os conhecimentos e os recursos necessários para realizar os ODM e não o fazer seria um fracasso inaceitável, no plano moral e prático", alerta Ban Ki-moon.

Os temas centrais desta reunião foram os défices da Ajuda Pública ao Desenvolvimento –APD - (e transparência e eficácia da mesma), a melhoraria do enquadramento do comércio internacional, a redução do peso da dívida, o acesso a medicamentos e à tecnologia por parte dos países em desenvolvimento.

O balanço que foi feito mostra-nos um cenário heterogéneo: a redução da pobreza em certas zonas do mundo, o avanço na universalização do ensino primário, o alargamento do número de pessoas que teve acesso a medicamentos antiretrovirais, as crianças que foram salvas com campanhas de vacinação contra o sarampo e a varíola, o abrandamento do ritmo de desflorestação mundial, o aumento da cobertura das novas tecnologias… Mas também os 1,4 mil milhões de pessoas continuam a subsistir com menos de 1,25 dólares dor dia, os 830 milhões de pessoas que sofrem de fome, os 9 milhões de crianças morrem por ano, na sua maioria de doença preveníveis ou tratáveis, antes de completarem os 5 anos de idade e as 350 mil mulheres morrem todos anos por complicações ligadas com a gravidez e o parto.

O panorama é pior nos países menos avançados, nos estados insulares e nos estados sem litoral, já para não falar nos países em conflito.

Do lado dos doadores, embora em 2010 os fluxos de APD tenham atingido os 120 mil milhões de dólares, o montante mais elevado de sempre, estes continuam aquém da promessa de dedicar 0,7% do seu RNB para a APD, ficando-se por uma média mundial de 0,31%. Os efeitos da crise económica e financeira mundial são usados como discurso de justificação para a contracção dos orçamentos da ajuda.

Da reunião de Nova Iorque saiu uma declaração que reitera os princípios que sempre têm norteado a cooperação em sede de ONU, tais como o da apropriação nacional, do desenvolvimento inclusivo, das parcerias mundiais, mas que tenta ir mais longo prescrevendo uma série de medidas de aceleração e efectiva consecução para cada ODM. Um documento notável pela síntese que é feita e que vale a pena ler.

Ao lado deste documento é de assinalar o lançamento pelo secretário-geral da Estratégia Mundial para a Saúde Materna e Infantil: com um investimento de 40 mil milhões de dólares poderemos salvar 16 milhões de vidas até 2015. A estratégia mundial pretende-se um roteiro que identifique as mudanças de políticas necessárias e o seu financiamento e ainda as intervenções susceptíveis de ajudar a melhorar a vida das mulheres e das crianças.

Programas como o Quadro para a Aceleração dos ODM, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento que pretende criar um meio sistemático de identificar os estrangulamentos e as soluções que permitem responder aos mesmos e ajudar os países a desenvolver os seus próprios planos de acção e que está me fase piloto em 10 países parecem-nos promissores e o tipo de estratégia inteligente e de forte impacto de que nos fala o Documento Final da Cimeira.

Um documento que deve ser lido e complementado com uma perspectiva de direitos humanos inspirada pelos inúmeros tratados assinados - como o defendeu a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos. Esta perspectiva permitirá colmatar algumas lacunas já identificadas.

O espírito de Nova Iorque traduziu-se, assim, num esforço de se mostrar o quanto foi feito, quantas vidas foram resgatadas a um destino miserável, quanto do planeta foi salvo. Mostrar que as crises fizeram retroceder anos de bons desempenhos e perigar conquistas que eram tidas como seguras. Mostrar que há uma consciência mundial de que o desenvolvimento e a segurança de todos estão tão interligados que não se percebe onde começa um e acaba o outro e, por consequência, onde começa a responsabilidade de um estado e termina a de outro. Mostrar que os números são pessoas, são os povos das Nações Unidas que apenas querem viver em dignidade.

Mónica Ferro, Professora ISCSP

Dossier MMTC 2010-09-28 10:54:58 6148 Caracteres Cooperação e Desenvolvimento

Homilia de D. António Carrilho nos 350 anos da morte de S. Vicente de Paulo e de Santa Luísa de Marillac

Homilia de D. António Carrilho nos 350 anos da morte de S. Vicente de Paulo e de Santa Luísa de Marillac
Apóstolos da Caridade, um testemunho sempre actual!

Celebramos, hoje, com júbilo e em acção de graças, o encerramento das festividades dos 350 anos da morte de S. Vicente de Paulo e de Santa Luísa de Marillac. Ambos, apóstolos ímpares da Caridade: o primeiro conhecido como o grande santo do grande século, pai dos pobres, e declarado por Leão XIII, em 05 de Maio de 1883, Padroeiro especial de todas as obras de caridade; a segunda, declarada por João XXIII, em 1960, Padroeira de todos os que se dedicam às obras sociais cristãs.

Ambos franceses, nascidos no final do século XVI, Vicente de Paulo em 1581, Luísa de Marillac em 1591 e falecidos em Paris, no mesmo ano, ele em 27 de Setembro, ela em 15 de Março. Foram duas vidas que se cruzaram na primeira metade do século XVII e se colocaram ao serviço do Pobre, qualquer que fosse o seu rosto, numa atenção e actividade constante contra a pobreza. Tal aconteceu, porque o encontro de Vicente de Paulo com o Pobre fora anterior, em 1617, na Paróquia de Folleville à cabeceira de um camponês. Foi este o sinal de que Deus se serviu para converter Vicente à causa do Pobre...



Carisma Vicentino, presente na Madeira

A partir daqui toda a sua vida gira à volta de um eixo: o Pobre. No mesmo ano, surge o primeiro fruto: as Confrarias da Caridade, as Senhoras da Caridade, que hoje chamamos a Associação Internacional das Caridades. Trabalham na nossa Diocese desde 1876, sempre ligadas ao Hospício D. Maria Amélia. Bem-hajam pelo trabalho socio-caritativo que realiza entre nós, desde essa data, junto dos mais pobres da nossa sociedade.

Para melhor realizar o serviço dos Pobres e os evangelizar, Vicente de Paulo reúne, em 1625, padres que, sem ser religiosos, aceitassem viver como religiosos. Estavam criados os Padres da Missão ou, como hoje são conhecidos entre nós, os Padres Vicentinos. Chegaram, pela primeira vez, à Madeira, em 1757 e por cá permaneceram 10 anos, no Seminário Diocesano, pregando retiros e em missões populares. O regresso dos Padres fez-se, depois, em 1874, ligados à Fundação do Hospício, mas também com um laço muito estreito ao Seminário Diocesano e às Missões populares. Desde então continuam presentes na nossa Diocese, como Capelães no Hospício e disponíveis para diferentes ministérios pastorais.

Em 1630, uma jovem pastora, Margarida Naseau, apresenta a Vicente de Paulo o projecto auspicioso de, com outras jovens, cuidar e servir os pobres sem remuneração. Estava aqui o embrião das Servas dos Pobres. Vicente de Paulo pede a Luísa de Marillac que oriente estas jovens... Nasciam em 1633 as Filhas da Caridade! Desembarcaram na Madeira em 1862 a pedido da Imperatriz D. Maria Amélia para assumir a Fundação do Hospício, onde se encontram ainda hoje. Mais tarde assumiriam o Refúgio de S. Vicente de Paulo, em Gaula, e a Fundação Santa Luísa de Marillac, no Caminho do Monte. Saudamo-las pela acção socio-caritativa que exercem entre nós junto dos carenciados, desde os mais pequeninos até aos mais idosos!

Embebido do espírito vicentino, Frederico Ozanam funda as Conferências Vicentinas em 1831 e, coisa admirável, em 1875, é fundada, na Paróquia de S. Pedro do Funchal, a 1ª Conferência madeirense e 2ª nacional! Hoje, os Vicentinos actuam em 39 das nossas Paróquias no contacto directo e pessoal com os mais pobres! Saudamo-los e auguramos-lhes, nos tempos de crise que correm, muita escuta e presença!

Ainda de espírito vicentino a Juventude Mariana Vicentina e as Filhas de Maria: ambas animam em diferentes paróquias da nossa Diocese, nos sectores que lhes são mais específicos, a vida das comunidades cristãs, difundindo a caridade que abrasava os corações de Vicente de Paulo e de Luísa de Marillac. Saudamo-las vivamente, também, pelo seu trabalho apostólico.



A prática da Caridade

Tanto a vida de Vicente de Paulo como a de Luísa de Marillac se centraram em torno da caridade e do Pobre, traduzindo para o seu tempo, mais pela acção do que pelo discurso, o Evangelho das Bem-aventuranças de Jesus Cristo (cf. Mt 5,1-12). Nas palavras do Profeta Isaías, eles foram sobre os montes os pés dos mensageiros que anunciam a paz, trazem a boa nova e proclamam a salvação (cf. Is 52,7-10).

A prática da caridade sem limites levou-os à prática do Reino de Deus, porque à medida que criavam hospitais, recolhiam crianças abandonadas, acolhiam jovens, matavam a fome às vítimas da guerra, eles estavam a trabalhar para unir as pessoas, a diminuir as diferenças entre elas, tornar a caridade uma realidade concreta.

Se, hoje, a caridade é tantas vezes mal compreendida, não estranharemos que a qualidade, que Vicente de Paulo lhe incutiu, fosse até reconhecida por ateus e por espíritos como o de um Voltaire, por exemplo. Michel Riquel chama-a o “realismo da caridade”, porque abarcava o ser humano na sua totalidade. Não se trata de simples beneficência, de uma caridade assistencial, porque Vicente de Paulo pensava sempre na dignidade do Pobre, por isso equacionava lucidamente caridade e justiça.

Caridade no sentido de que ela só é verdadeira, se for efectiva, solidária e interpeladora, sustentando que nem a justiça prevalece sobre a caridade, porque a pessoa precisa de ser atendida com amor, nem a caridade prevalece sobre a justiça, porque “Deus nos concede a graça de enternecer os nossos corações em favor dos miseráveis e de crer que, ao socorrê-los, estamos a fazer justiça...”

É por esta razão que ele ia ao encontro de todas as forças vivas da nação em favor do pobre e não se cansava de afirmar: “a caridade é inventiva até ao infinito” e ainda: “amemos a Deus, meus irmãos, mas com o suor dos nossos rostos e o esforço dos nossos braços”.



Causa do Pobre, a causa de Cristo

Tudo aconteceu em 1617 quando Vicente de Paulo se encontrou face a face com o Pobre. O Pobre converteu-o, tornou-se para Vicente de Paulo, sacramento de Cristo, mediação viva e expressão real do Senhor, lugar preferencial para o encontro com Deus sofredor e crucificado, isto é, ponto de partida e de chegada da sua reflexão e do seu agir espiritual.

A causa do Pobre tornou-se a causa de Cristo. Esta descoberta despoletou a fecundidade da vida cristã de Vicente de Paulo: “Vede como o principal para Nosso Senhor era trabalhar pelos pobres”; “Jesus Cristo não fez outra coisa no mundo senão servir os pobres”. Por esta razão, ele não hesitará em chamá-los “nossos senhores e nossos mestres”, porque são os pobres que nos dizem qual é a vontade de Deus, porque eles constituem a razão de ser das instituições vicentinas, configuram as suas origens, rectificam o seu presente e dinamizam o compromisso do seu futuro.

Se a caridade de Vicente de Paulo pelo pobre se enraíza tão profundamente no mistério de Deus, ele não cessa de afirmar que ela deve ser vivida concretamente no serviço prestado ao pobre, com respeito e devoção, para evidenciar a dignidade que lhe é devida, seguindo uma pedagogia libertadora, isto é, que o trabalho junto do pobre o leve a caminhar pelos seus próprios pés e o incite a que outros o façam também. São palavras suas: “Assim como o Verbo-Pobre foi enviado para encarnar em Jesus Pobre, assim os pobres são convidados a continuar a missão junto de seus irmãos pobres”.



Caridade e justiça, valores fundamentais

Trezentos e cinquenta anos nos separam de Vicente de Paulo e de Santa Luísa de Marillac. Vemos, ainda hoje, o número de pobres a aumentar, de tal modo que as Nações Unidas proclamaram 1996 o ano da erradicação da Pobreza; e agora é a vez da Europa declarar 2010 o ano da luta contra a Pobreza e exclusão social. O que evidencia que a Pobreza continua a estar longe de ser debelada e a mensagem de Vicente de Paulo de amor ao pobre e de luta contra a pobreza mantém toda a sua actualidade.

Num mundo globalizado como o nosso, cada um de nós é chamado a empenhar-se na causa da justiça, como valor evangélico fundamental. A caridade-justiça conduz-nos a um conjunto de atitudes e acções contrárias às daqueles que gravitam em torno dos interesses económicos, sobrepondo-os ao incomparável e excelso valor do ser humano que, em todas as circunstâncias, deve ser respeitado na sua dignidade fundamental, como pessoa que é.

S. Vicente de Paulo oferece-nos a lógica da partilha, da solidariedade, da comunhão, da dignidade humana, dos direitos do pobre. O Reino de Deus, que o mesmo é dizer o Reino das Bem-aventuranças, vai-se construindo com todos os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus. São estes, que estabelecerão entre si laços de fraternidade, e que poderão, na caridade e na justiça, dizer: Pai Nosso!

Funchal, 27 de Setembro de 2010

† António Carrilho, Bispo do Funchal


Documentos D. António José Cavaco Carrilho 2010-09-28 13:11:35 10445 Caracteres Diocese do Funchal

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

«Vozes contra a pobreza»

«Vozes contra a pobreza»
Cáritas vai falar sobre os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, na cimeira das Nações Unidas
Quando faltam cinco anos para atingir o prazo dado pelas Nações Unidas (ONU) para o cumprimento dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM), a Cáritas declara que muitos países pobres não vão conseguir alcançar as metas estabelecidas.

Uma posição que vai ser defendida hoje, dia 22, durante a cimeira dedicada à matéria, em Nova Iorque.

O secretário-geral da Cáritas Senegal é o representante da Cáritas no encontro e vai discursar perante os membros das Nações Unidas.

Em declarações ao site oficial da Cáritas, Ambroise Tine refere que uma família pobre do Senegal pode não conhecer o que são os ODM, “mas trabalham dia a dia para alcançá-los”.

“Conhecem os ODM por outro nome. Chama-nos de sobrevivência” sublinha aquele responsável.

Antecipando os pontos fortes que marcarão o seu discurso na cimeira, Ambroise Tine sublinha que “a questão não se põe apenas na falta de dinheiro”.

“Faltam líderes políticos que olhem para todos como seres humanos, e considerem valores como a dignidade, liberdade e o acesso a melhores condições de vida, direitos invioláveis e profundamente sagrados” defende aquele responsável.

Uma vontade política que, de acordo com o secretário-geral da Cáritas Senegal, poderá ser manifestada em matérias como o cancelamento da dívida do continente africano e na elaboração de regras mais justas, em termos de comércio internacional.

Ainda a este nível, a Cáritas está a desenvolver uma campanha para apoiar os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM).

A iniciativa, intitulada “Vozes contra a pobreza”, está a ser lançada em cerca de 200 países, onde a organização humanitária tem vindo a desenvolver o seu trabalho.

“Somos a primeira geração que tem os recursos, o conhecimento e a habilidade necessárias para eliminar a pobreza”, pode ler-se no site oficial da campanha, em http://mdg2015.caritas.org/


Internacional Agência Ecclesia 2010-09-22 10:11:15 2453 Caracteres Cooperação e Desenvolvimento

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Encontro com a pobreza escondida

VIVER A PALAVRA: Encontro com a pobreza escondida
Peregrinação Arciprestal à Senhora do Alívio
A vós peregrinos, que das diversas zonas do concelho percorrestes os caminhos da Senhora do Alívio, vos saúdo fraternalmente.
A Peregrinação Arciprestal é sempre um momento providencial para trilharmos caminhos novos ao serviço da Igreja de Jesus Cristo. É, por isso, o momento oportuno para dar a conhecer o Programa Pastoral Arquidiocesano para este ano. Queremos viver animados pela Palavra, é este o grande lema.
Mas será que já conhecemos o Programa Pastoral? Já o demos a conhecer e a trabalhar nos Conselhos Pastorais Paroquiais? Que programa arciprestal foi delineado? Quais os objectivos atingir nos diversos sectores da Pastoral? Como animar toda a pastoral a partir da Palavra que convoca e provoca para a Missão?
Queremos, como objectivo geral, Tomar conta da Palavra. Ao longo deste ano acreditamos que a Palavra irá estruturar a vida das pessoas (sacerdotes e leigos) numa interpelação e interrogação permanentes ao modo como assumimos o Evangelho na vida pessoal e comunitária.
A Palavra de Deus chama-nos à responsabilidade, na Igreja ou no serviço público, de cooperarmos pelo bem comum da humanidade. Na verdade, S. Paulo, incita os cristãos a rezar com alegria por todos os reis e autoridades, para que reconheçam o verdadeiro Deus. Quem tem poder que se faça servo, servindo com alegria e humildade os bens que lhe foram confiados. Quem age despoticamente e por prestígio pessoal facilmente se corrompe. Esta orientação pastoral de S. Paulo faz sentido hoje, porque é servindo no amor e na gratuidade que faremos da justiça e da dignidade humana um ideal concretizado no rosto de cada ser humano.
De acordo com o Evangelho, são dois os desafios que se colocam a todos nós:
- ser fiel na missão que temos a nosso encargo. Uma fidelidade que passa pelas coisas pequenas que alicerçam as condições para um testemunho pessoal e verdadeiro nas coisas grandes;
- não querer servir a dois senhores – Deus e o dinheiro – que são coisas incompatíveis quando pervertemos toda a lógica do dom, da partilha e da fraternidade.
“Viver da Palavra” terá de fazer de nós profetas que denunciam toda e qualquer forma de vida que ponha em causa o justo equilíbrio (económico, social e cultural) da sociedade. Esta luta entre a ânsia do ter poder e a coerência com princípios de honestidade é um caminho de permanente conversão e de maturidade humana e espiritual. Como podemos dizer que somos homens e mulheres livres se gastamos as nossas vidas nas grandes catedrais do consumo, se obedecemos a todos os spots publicitários que nos prometem felicidade gratuita, sem esforço e sem trabalho?
A leitura do profeta Amós é uma denúncia realista, corajosa, eloquente, pormenorizada, objectiva de tantas injustiças sociais que naquele tempo se praticavam, quer em relação às pessoas quer em relação ao direito de propriedade. Uns tinham tudo, outros apenas as sobras e outros nem aos restos tinham direito. É preciso dizer sem medo que neste século XXI, da era do progresso, existem pecados sociais de igual ou maior gravidade que marginalizam os mais pobres. Muitos desses pecados são evidentes; outros continuam escondidos em pessoas habilidosas que usam das suas influências para enriquecer de forma ilícita e sem escrúpulos. Cada pessoa tem a missão de contribuir para a resolução dos problemas, mediante uma cidadania activa e crítica face à corrupção, as injustiças e às manobras ilícitas de favoritismos.
Neste sentido, gostaria de lembrar que a partir de amanhã, até ao dia 22, acontecerá uma cimeira das Nações Unidas para avaliação dos oito objectivos da luta contra a pobreza no mundo, assumidos no ano 2000, como Objectivos do Milénio. Nesta data, reconhecendo teoricamente, os princípios da igualdade e fraternidade e aceitando o princípio elementar da Doutrina Social da Igreja do destino Universal dos bens, as sociedades comprometeram-se a eliminar a pobreza garantindo alimentos, água potável, instrução básica, cuidados de saúde básica para todos os seres humanos.
Passaram-se dez anos. Muitos objectivos foram conseguidos. Mas continuamos com um índice de pobreza mundial altíssimo, que se acentuou com a crise económica, financeira e humana dos tempos actuais.
O Santo Padre, na sua última encíclica Caritas in veritate, recordava a necessidade de se darem respostas adequadas para um desenvolvimento integral da humanidade. Cada um deve assumir a sua responsabilidade. Mas nunca poderemos deixar de testemunhar, perante os poderes civis, a nossa indignação perante tantas situações de miserabilismo que carecem de resposta eficaz e rápida. É tempo de colocar de lado ideologias e interesses pessoais para nos unirmos em torno de acções concertadas que resolvam situações de pobreza material e humana nas nossas comunidades. É de pessoas que falamos e não de números estatísticos.
Actualmente, acontece uma grande preocupação pelas estatísticas e ficamos contentes quando estas mostram algumas alterações positivas. Se isto é importante, a mensagem do amor ao próximo de Cristo leva-nos a olhar para aqueles que não se manifestam nem aparecem nesses dados parciais. Sabemos que são muitos os que recorrem aos Serviços Estatais e às Organizações da Igreja Católica. Muitas vezes são empurrados dum lado para o outro. É necessário conhecer as situações, as pessoas, dialogar com elas e não tratá-las como mais um número a integrar no sistema de beneficiários. Cada pessoa tem uma história própria e ninguém está livre de acabar a sua vida na miséria. Ajudemo-nos fraternalmente uns aos outros! São tantos os gritos e as bocas a clamar quem os escute e atenda!
Pessoalmente e por experiência quase diária, reconheço a existência de pessoas sem coragem para mostrar a sua real situação. Preferem passar mal por vergonha de falar e de não serem atendidos nas suas preocupações. Cresce o número destas pessoas. Só um coração que vê, escuta e atende conseguirá resolver as situações. Viver da Palavra abre o nosso coração aos que não falam por vergonha e faz das nossas comunidades lugares de habitação de Deus, pelo qual o cristão testemunha o seu amor aos irmãos. É tempo de perguntar como vivem, efectivamente, determinadas famílias em Vila Verde? Temos ou não responsabilidade de conhecer as situações com a caridade e discrição que elas exigem?
Rezemos a Maria, para que os governantes sejam bons administradores das coisas públicas. Sirvam, se não for em nome de Deus em nome da humanidade, todos os cidadãos com igual amor e verdade. Que não procurem comprar os necessitados com promessas que nunca encontram uma concretização e que estejam sempre ao serviço duma justa igualdade e duma fraternidade autêntica.
Como Maria, procuremos ir ao encontro de diversas formas de pobreza escondida e ousemos encontrar soluções justas. Os mais pobres terão de ser a nossa opção. Nesse sentido, preparemo-nos para saborear e comer o pão da vida, Jesus Cristo, Caminho, Verdade e Vida de todo o homem.
Santuário de Nossa Senhora do Alívio, 19-09-2010
† Jorge Ortiga, A.P.